Tradução de Carlos Afonso Malferrari
Em abril de 1997, com apoio do Banco Mundial e da IUCN - União Para Conservação Mundial - grupos representando diversos interesses reuniram-se em Gland, Suíça, por ocasião da publicação de um recente relatório do Banco Mundial, para discutirem questões altamente controversas envolvendo as grandes barragens. O workshop reuniu 39 participantes de governos, do setor privado, de instituições financeiras internacionais, de organizações da sociedade civil e de populações afetadas. Uma das propostas resultantes do encontro foi que todas as partes trabalhassem juntas para estabelecer a Comissão Mundial de Barragens (CMB) com mandato para:
A CMB iniciou o seu trabalho em maio de 1998, sob a presidência do prof. Kader Asmal, ministro de Assuntos Hídricos e Florestais da África do Sul na época. Os membros foram escolhidos de tal modo que refletissem a diversidade regional, uma variada gama de conhecimentos e as diferentes expectativas das partes envolvidas.
O relatório final da Comissão Mundial de Barragens, Barragens e Desenvolvimento: Um Novo Modelo para Tomada de Decisões, foi publicado em novembro de 2000.
Este sumário constitui um resumo condensado de "Barragens e Desenvolvimento". Sugerimos aos leitores que consultem as seções relevantes do relatório completo para melhor apreenderem o contexto e as nuanças das conclusões e recomendações. O relatório completo também inclui uma detalhada lista de agradecimentos, que não foi possível reproduzir neste documento, assim como um comentário elaborado pela Comissária Medha Patkar.
Uma ampla consulta a todos os grupos interessados na questão das grandes barragens resultou em um convite a várias personalidades eminentes para tornarem-se membros da Comissão Mundial de Barragens (CMB). Essas pessoas foram selecionadas por sua ampla e variada experiência, pontos de vista e conhecimentos que poderiam trazer para o debate. O secretário-geral foi indicado membro ex-officio da Comissão. Os Comissários, coletivamente, foram responsáveis pela elaboração dos termos do mandato da CMB. O trabalho da Comissão foi de natureza consultiva, e não investigativa. Diferentemente de uma comissão de caráter jurídico, a CMB não foi criada para dirimir disputas específicas.
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Presidente Prof. Kader Asmal Ministro da Educação África do Sul |
Vice-Presidente Lakshmi Chand Jain Membro do Conselho da Industrial Development Services Índia |
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Don Blackmore Diretor da Comissão da Bacia Murray-Darling Austrália |
Joji Cariño Fundação Tebtebba Filipinas |
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Prof. José Goldenberg Instituto de Eletrônica e Energia da Universidade de São Paulo Brasil |
Judy Henderson Ex-presidente da Oxfam International Austrália |
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Göran Lindahl Presidente e CEO da ABB Ltd. Suécia |
Deborah Moore Consultora Sênior Defesa Ambiental Estados Unidos |
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Medha Patkar Fundadora da Narmada Bachao Andolan (Luta para Salvar o Rio Narmada) Índia |
Thayer Scudder Professor de Antropologia Instituto de Tecnologia da Califórnia Estados Unidos |
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Jan Veltrop Presidente honorário da Comissão Internacional sobre Grandes Barragens (ICOLD) Estados Unidos |
Achim Steiner Secretário-Geral da CMB (membro ex-officio da Comissão) Alemanha |
O relatório da CMB é um marco na evolução das barragens como opção de desenvolvimento. O debate sobre barragens diz respeito ao próprio significado e propósito do desenvolvimento e aos caminhos para promovê-lo. Em seu Estudo Global do desempenho das barragens, a Comissão apresenta uma avaliação integrada de quando, como e por que as barragens conseguem ou não atingir os objetivos de desenvolvimento, oferecendo uma base racional para introduzir mudanças fundamentais na forma de avaliar opções e nos ciclos de planejamento e projeto de aproveitamentos de recursos hídricos e energéticos.
O modelo para tomada de decisões apresentado pela Comissão baseia-se em cinco valores essenciais: equidade, sustentabilidade, eficiência, processo decisório participativo e responsabilidade. O modelo propõe:
A posição filosófica e as recomendações da Comissão oferecem espaços para avanços que nenhuma perspectiva isolada é capaz, assegurando que a tomada de decisões sobre o desenvolvimento de recursos hídricos e energéticos:
Veja na quarta capa como obter uma cópia de Barragens e Desenvolvimento.
Barragens têm sido construídas há milhares de anos - barragens para controlar inundações, para represar águas como fonte de energia hidrelétrica, para fornecer água para consumo humano direto, uso industrial ou para irrigar plantações. Em torno de 1950 os governos - ou, em alguns países, o setor privado - estavam construindo um número cada vez maior de barragens à medida que as populações aumentavam e as economias nacionais cresciam. Pelo menos 45.000 grandes barragens foram construídas para atender demandas de água ou energia. Hoje quase metade dos rios do mundo tem ao menos uma grande barragem.
Na entrada do novo século, um terço dos países do mundo depende de usinas hidrelétricas para produzir mais da metade da sua eletricidade. As grandes barragens geram 19% de toda a eletricidade do mundo. Metade dessas grandes barragens foi construída exclusiva ou primordialmente para fins de irrigação, e cerca de 30% a 40% dos 271 milhões de hectares irrigados no planeta dependem de barragens. As represas têm sido promovidas como um importante meio de atender a necessidades percebidas de água e energia e como investimentos estratégicos de longo prazo capazes de oferecer múltiplos benefícios. Alguns desses benefícios adicionais são típicos de todos os grandes projetos de infra-estrutura, enquanto outros são exclusivos das barragens e específicos de determinados projetos. Desenvolvimento regional, geração de empregos e fomento para uma base industrial com potencial exportador costumam ser citados como motivos adicionais para a construção de grandes barragens. Outras metas incluem a geração de renda advinda de exportações, seja através da venda direta de eletricidade, de produtos agrícolas ou de produtos processados por indústrias eletrointensivas, como a indústria do alumínio. Claramente, as barragens podem desempenhar um papel importante em atender as necessidades das pessoas.
Mas os últimos 50 anos também deixaram claro o desempenho e os impactos sociais e ambientais das grandes barragens. Essas fragmentaram e transformaram os rios do mundo, enquanto que estimativas globais sugerem que entre 40 e 80 milhões de pessoas foram deslocadas pelas barragens. À medida que as bases dos processos de tomada de decisão foram tornando-se mais abertas, participativas e transparentes em muitos países, a opção de construir grandes barragens foi sendo cada vez mais contestada, chegando ao ponto de colocar-se em questão a construção de novas grandes barragens em muitos países.
Os enormes investimentos envolvidos e os impactos gerados pelas grandes barragens provocaram conflitos acerca da localização e impactos dessas construções - tanto das já existentes como das que ainda estão em fase de projeto, tornando-se atualmente uma das questões mais controvertidas na área do desenvolvimento sustentável. Os partidários das barragens apontam para as necessidades de desenvolvimento social e econômico que as barragens visam satisfazer, como a irrigação, a geração de eletricidade, o controle de inundações e o fornecimento de água potável. Os oponentes ressaltam os impactos adversos das represas, como o aumento do endividamento, o estouro dos orçamentos, o deslocamento e o empobrecimento de populações, a destruição de ecossistemas e recursos pesqueiros importantes e a divisão desigual dos custos e dos benefícios.
Com esses conflitos e pressões em mente, a Comissão Mundial de Barragens deu início ao seu trabalho em maio de 1998. Um dos primeiros pontos acerca dos quais os Comissários concordaram foi que barragens são apenas um meio para alcançar-se um fim. Mas qual fim? Quão centrais são os desafios que as grandes barragens visam solucionar? E até que ponto conseguem elas fazer face a esses desafios?
A CMB concluiu que o "fim" pretendido por todo projeto deve ser a melhoria sustentável do bem-estar humano. Isso significa promover um avanço significativo no desenvolvimento humano em uma base que seja economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente sustentável. Se uma grande barragem for a melhor maneira de atingir tal meta, ela merece ser apoiada. Se outras opções oferecem soluções melhores, elas devem ser preferidas. Assim o debate em torno das barragens coloca em cheque pontos de vista estabelecidos de como as sociedades desenvolvem e gerenciam seus recursos hídricos em um contexto mais amplo de opções de desenvolvimento.
Após mais de dois anos de intensos estudos, reflexão e diálogos com partidários e oponentes de grandes barragens, a Comissão acredita não ser mais justificável questionar os cinco pontos-chave abaixo:
As conclusões gerais da Comissão sobre grandes barragens estão fundamentadas num entendimento básico das relações entre águas, barragens e desenvolvimento. (Veja no Quadro 1 a definição de "grande barragem"). Um dos maiores desafios que o mundo enfrenta neste novo século é o de repensar o gerenciamento dos seus recursos de água doce. Inúmeras iniciativas globais e relatórios têm documentado o dramático impacto das retiradas de água dos lagos, rios e aquíferos subterrâneos ao redor do mundo. Estima-se que as retiradas de água doce atinjam hoje 3.800 quilômetros cúbicos por ano - duas vezes mais que 50 anos atrás.
Quadro 1. O que é uma grande barragem?De acordo com a ICOLD (Comissão Internacional sobre Grandes Barragens), uma grande barragem tem altura igual ou superior a 15 metros (contados do alicerce). Se a barragem tiver entre 5 e 15 m de altura e seu reservatório tiver capacidade superior a 3 milhões de m3, também é classificada como grande. Tomando por base esta definição, existem hoje mais de 45.000 grandes barragens em todo o mundo. |
Agora que os lençóis freáticos estão se exaurindo, que a qualidade da água está declinando e que há limites cada vez mais severos à extração de água superficial, a necessidade de fornecer água para populações e economias crescentes colocou o gerenciamento sustentável dos recursos hídricos no topo de agenda do desenvolvimento global. Essas pressões sobre a água trazem em si uma ampla gama de ameaças, mas por outro lado também geram as condições iniciais para criar novas oportunidades e promover mudanças nas políticas.
Ao longo das últimas décadas, as sociedades deixaram de ver a água como um bem gratuito e aprenderam a vê-la como um recurso natural limitado - e, mais recentemente, como um bem econômico e um direito humano. Desse modo, hoje reconhecemos que a água é um recurso natural escasso, o que dá margem a considerações sobre a equidade em sua distribuição.
Quanta água é necessária para abastecer mais uma pessoa, ou mais uma pessoa em áreas urbanas? O uso per capita de água varia muito em diferentes regiões do mundo. Apesar de os níveis considerados adequados de consumo doméstico de água serem influenciados por fatores climáticos e culturais, diversas agências internacionais e especialistas propõem que 50 litros por pessoa por dia são suficientes para cobrir as necessidades humanas básicas de água para consumo, limpeza, higiene e culinária. Em 1990, porém, mais de 1 bilhão de pessoas viviam com menos que isso, enquanto que um domicílio num país industrial ou um habitante urbano rico de um país em desenvolvimento usava de 4 a 14 vezes esse volume.
Barragens e Desenvolvimento inclui previsões dos principais analistas que antevêem uma competição crescente por água para agricultura, indústria e consumo humano.
Ao longo do último século, grande parte do mundo recorreu às barragens para atender à crescente demanda de água. De fato, entre as décadas de 30 e 70 a construção de grandes barragens tornou-se - na opinião de muitos - sinônimo de desenvolvimento e progresso econômico. Vistas como símbolos de modernização e da capacidade de a humanidade controlar e utilizar recursos naturais, houve um aumento dramático na construção de barragens.
Essa tendência atingiu o auge nos anos 70, quando em média duas ou três novas grandes barragens eram comissionadas no mundo a cada dia. O declínio na construção de novas barragens desde então foi igualmente dramático, especialmente na América do Norte e Europa, onde a maioria dos locais tecnicamente atraentes já foram aproveitados.
Os cinco países onde mais se construíram barragens são responsáveis por mais de três quartos de todas as grandes barragens em todo o mundo (Figura 1), sendo que cerca de dois terços de todas as grandes barragens do mundo estão localizadas em países em desenvolvimento. A energia hidrelétrica é responsável por mais de 90% da produção total de eletricidade em 24 países, entre eles o Brasil e a Noruega. Metade das grandes barragens do mundo foram construídas exclusivamente para irrigação e estima-se que as barragens contribuam com 12% a 16% da produção mundial de alimentos. Além disso, em pelo menos 75 países, grandes barragens foram construídas para controlar inundações e em muitas nações barragens continuam como os maiores projetos individuais em termos de investimento.
Os serviços de fornecimento de água potável, geração de energia hidrelétrica, irrigação e controle de inundações eram vistos em geral como suficientes para justificar investimentos vultosos em barragens. Mas outros benefícios também costumavam ser citados, entre os quais a prosperidade econômica regional decorrente das múltiplas safras, a eletrificação rural e a expansão da infra-estrutura física e social como por exemplo através de estradas e escolas. Os benefícios eram considerados axiomáticos. Quando comparados com os custos de construção e operação - tanto em termos econômicos quanto financeiros - os benefícios pareciam justificar plenamente a construção de barragens como a opção mais competitiva.
| Figura 1: Número de barragens no mundo, por país | ||
| China | 46% | |
| Estados Unidos | 14% | |
| Índia | 9% | |
| Japão | 6% | |
| Espanha | 3% | |
| Outros: | 23% | |
| Outros | 16% | |
| Canadá | 2% | |
| Coréia do Sul | 2% | |
| Turquia | 1% | |
| Brasil | 1% | |
| França | 1% | |
| Fonte: estimativas da CMB, com base em dados da ICOLD e de outras fontes | ||
Como notado anteriormente, o retorno dos investimentos feitos em barragens tem sido cada vez mais questionado. O embate entre os custos os benefícios divulgados tornou-se uma preocupação pública à medida que adquiríamos experiência e conhecimentos sobre o desempenho e as conseqüências das barragens. Apoiada por estudos e informações sobre o impacto das barragens nas pessoas, bacias fluviais e ecossistemas, e em dados sobre desempenho econômico, a oposição começou a crescer. Nos primeiros estágios deste processo, as discussões e controvérsias enfocavam barragens específicas e seus impactos locais. Mas gradualmente esses conflitos de âmbito local evoluíram para uma discussão mais geral que culminou em um debate de proporções globais sobre as barragens.
As questões em torno das barragens são as mesmas questões em torno da água e de como decisões envolvendo água são tomadas - e de como a eficácia do desenvolvimento é avaliada. Há pouca controvérsia pública sobre as vantagens e desvantagens de um dique ou uma barragem de gravidade, ou sobre o uso de aterros de terra, concreto ou rocha. Todos os problemas que surgem dizem respeito a como a barragem afetará o fluxo do rio, aos direitos de acesso a água e recursos fluviais, à possibilidade da barragem deslocar povoados existentes, estorvar a cultura, corromper os meios de subsistência de comunidades locais ou exaurir ou degradar os recursos ambientais, e ao fato de uma barragem ser ou não o melhor investimento econômico de verbas e recursos públicos.
O debate envolve, em parte, o que ocorreu no passado e continua a ocorrer hoje e, em parte, o que poderá vir a ocorrer no futuro se novas barragens forem construídas. Em certos países, questões sociais ou ambientais específicas são determinantes; em outros, são considerações mais genéricas acerca do desenvolvimento. Nos Estados Unidos, onde a taxa de descomissionamento é maior do que a taxa de construção de grandes barragens novas, a discussão é qualitativamente diferente, mas nem por isso menos intensa, do que na Índia - que, ao lado da China, é hoje o país que mais constrói barragens.
Os dois principais pólos do debate ilustram a gama de pontos de vista sobre a experiência com grandes barragens no passado. Uma perspectiva aponta para a discrepância entre os benefícios prometidos pela barragem e seus resultados efetivos. Uma outra examina os desafios de desenvolvimento hídrico e energético sob a óptica da "construção nacional" e da alocação de recursos. Para defensores das barragens, a resposta a qualquer pergunta sobre o desempenho passado dessas construções é evidente em si mesma, pois sustentam que, no geral, o desempenho das barragens foi positivo como parte integrante das estratégias de desenvolvimento de recursos hídricos e energéticos em mais de 140 nações e, com exceções, elas prestaram uma variedade indispensável de serviços hídricos e energéticos.
Os oponentes das barragens afirmam que existem opções melhores, mais baratas e mais benignas para atender as necessidades de água e energia, e que essas opções foram muitas vezes ignoradas - desde opções descentralizadas de fornecimento de água e eletricidade em pequena escala ou opções para gerenciar melhor a demanda e tornar mais eficiente o aproveitamento da água pelos usuários finais. Argumenta-se que muitas vezes optou-se pela construção de uma barragem a despeito de haver outras opções que poderiam atingir as mesmas metas hídricas ou energéticas a um custo menor ou que ofereciam benefícios de desenvolvimento mais sustentável e menos desigual.
Embora possa haver acordo sobre questões como a necessidade de considerar mais seriamente os custos ambientais e sociais de uma barragem, ou de consultar sistematicamente as pessoas que serão afetadas, profundas divergências financeiras, econômicas, sociais e ambientais ainda separam os críticos e os partidários das barragens. Entre os temas mais sensíveis estão: n o ponto até o qual as alternativas às barragens são viáveis para atingir as diversas metas de desenvolvimento, e se essas alternativas são complementares ou mutuamente excludentes;
Para cumprir seu mandato de examinar a eficácia das grandes represas no desenvolvimento e de avaliar alternativas para a geração de recursos hídricos e energéticos, a Comissão preparou oito estudos de caso detalhados de grandes barragens, elaborou resenhas especiais sobre a Índia e a China e preparou um relatório sobre a Rússia e os Novos Estados Independentes. (Veja no Quadro 2 uma lista das barragens estudadas).
Foi realizado ainda um levantamento de 125 grandes barragens, acompanhado por 17 estudos temáticos sobre questões sociais, ambientais e econômicas, sobre alternativas às barragens e sobre os processos institucionais e de governo. Além disso, 947 trabalhos e apresentações foram submetidos a quatro consultas regionais. Todo esse material foi reunido para formar a Base de Conhecimentos da CMB, que forneceu informações à Comissão sobre as principais questões envolvendo as barragens e suas alternativas.
Quadro 2. Barragens estudadas pela CMB
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O Estudo Global teve três componentes:
A avaliação do desempenho das grandes barragens feita pela CMB baseou-se nas metas estabelecidas pelos seus próprios defensores - os critérios que serviram para obter aprovação e financiamento governamentais. A análise da Comissão dedicou-se em especial à tentativa de compreender por que, como e onde as barragens não apresentaram os resultados pretendidos ou produziram resultados inesperados. Uma parte integrante dessa pesquisa envolveu a documentação de práticas positivas que surgiram para corrigir deficiências e dificuldades do passado. A apresentação desta análise não relega os substanciais benefícios advindos das barragens, mas tenta responder por que algumas barragens atingem suas metas e outras não.
O grau em que as grandes barragens inclusas na Base de Conhecimentos da CMB prestaram os serviços e benefícios pretendidos variou consideravelmente de projeto para projeto, sendo que uma grande parcela deles ficou aquém dos alvos físicos e econômicos. A despeito disso, os serviços produzidos pelas barragens são imensos, como observamos acima. Independente de cotejar desempenho e metas, a Base de Conhecimentos também confirmou a longevidade das grandes barragens, pois muitas delas continuam a gerar benefícios após 30-40 anos de operação.
Um exame setorial do desempenho técnico, financeiro e econômico das barragens constantes na Base de Conhecimentos, comparando os resultados planejados e os resultados efetivos, sugere o seguinte:
O estudo do desempenho das barragens sugere ainda duas outras constatações:
O estudo também examinou fatores relacionados à sustentabilidade física das grandes barragens e seus benefícios, confirmando o seguinte:
Partindo das informações sobre o desempenho das grandes barragens inclusas na Base de Conhecimentos da CMB, o relatório da Comissão mostra que existe uma considerável margem de aperfeiçoamento na seleção de projetos de barragens e na operação das grandes barragens existentes e de sua infra-estrutura. Considerando os enormes investimentos feitos em grandes barragens, é surpreendente que haja tão poucas avaliações independentes do seu desempenho - e mesmo essas têm um alcance restrito e não integram devidamente as categorias e escalas dos impactos.
A natureza genérica dos impactos das grandes barragens sobre os ecossistemas, a biodiversidade e a subsistência das populações a jusante vai tornando-se cada vez mais conhecida. A Base de Conhecimentos da CMB deixa claro que as grandes barragens provocaram:
No saldo final, os impactos sobre o ecossistemas são mais negativos do que positivos e, em muitos casos, provocaram danos significativos e irreversíveis a espécies e ecossistemas. Em certos casos, porém, houve um aumento do valor do ecossistema, graças à criação de novos habitats em áreas alagadas e às oportunidades de pesca e recreação geradas pelos novos reservatórios.
A Comissão constatou que, das represas estudadas por cientistas até o momento, todas emitem gases que contribuem para o efeito estufa, como ocorre com os lagos naturais, devido à decomposição de vegetação e ao influxo de carbono na captação. A intensidade dessas emissões varia muito. Dados preliminares do Estudo de Caso sobre uma usina hidrelétrica no Brasil mostram que o nível bruto dessas emissões é significativo quando comparado com as emissões de usinas termelétricas equivalentes.
Entretanto, em outras represas estudadas (particularmente em zonas boreais), a emissão bruta de gases do efeito estufa é significativamente menor do que a da alternativa termelétrica. Uma comparação plena exigiria que fossem medidas as emissões de habitats naturais anteriores ao represamento. Novas pesquisas e estudos caso-a-caso são necessários para demonstrar a possibilidade das usinas hidrelétricas provocarem mudanças climáticas.
Até o momento, os esforços para amenizar os impactos das grandes barragens sobre ecossistemas tiveram sucesso limitado devido ao descaso em se prever e evitar tais impactos, à má qualidade e pouca confiabilidade dos prognósticos, à dificuldade de enfrentar todos os impactos e à implementação e sucesso apenas parciais das medidas de mitigação ambiental. Mais especificamente:
Dado o sucesso limitado das medidas tradicionais de mitigação, leis para evitar ou minimizar os impactos ecológicos têm recebido cada vez mais atenção, preservando em seu estado natural segmentos ou bacias fluviais específicas e selecionando projetos, locais ou concepções alternativas. Além disso, os governos têm experimentado uma abordagem "compensatória", contrabalançando a perda de ecossistemas e biodiversidade provocada por uma grande barragem com investimentos em medidas de conservação e regeneração, e através da proteção de outros sítios ameaçados com valor ecológico equivalente. Por fim, em diversos países industrializados, e particularmente nos Estados Unidos, a restauração de ecossistemas vem sendo implementada através da desativação de grandes e pequenas barragens.
Quanto aos impactos sociais das barragens, a Comissão constatou que muitas vezes os efeitos negativos não são adequadamente avaliados ou sequer considerados. A gama desses impactos é considerável - sobre a vida, a subsistência e a saúde das comunidades afetadas que dependem do ambiente ribeirinho:
Em suma, a Base de Conhecimentos demonstrou haver uma falta generalizada de compromisso ou de capacidade ao se lidar com o deslocamento de pessoas. Além disso, as grandes barragens incluídas na Base de Conhecimentos também tiveram grandes efeitos adversos sobre o patrimônio cultural, devido ao desaparecimento de recursos culturais das comunidades locais e à submersão e degradação de restos vegetais e animais, sepulcros e monumentos arqueológicos.
A Base de Conhecimentos indica que é provável que os pobres, outros grupos vulneráveis e as gerações futuras arquem com uma parcela desproporcional dos custos sociais e ambientais dos projetos de grandes barragens sem que obtenham uma parcela correspondente dos benefícios econômicos:
Onde existem tais iniqüidades na distribuição dos custos e benefícios, o Estudo Global ressalta que uma abordagem do tipo "balanço geral" para contabilizar os custos e benefícios torna-se cada vez mais inaceitável em termos de equidade e como meio de escolher os "melhores" projetos. Seja como for, a verdadeira lucratividade econômica dos projetos de grandes barragens permanece imponderável, pois os custos ambientais e sociais foram mal contabilizados em termos econômicos. Em particular, a não contabilização desses impactos e o não cumprimento dos compromissos assumidos levaram ao empobrecimento e sofrimento de milhões de pessoas. Isso tem gerado em todo o mundo uma oposição crescente às barragens por parte das comunidades afetadas. Mas têm surgido alguns exemplos inovadores de processos de indenização e compartilhamento de benefícios, dando a esperança de que as injustiças do passado talvez possam ser remediadas e as do futuro evitadas.
O Estudo Global examinou as opções para se atender as necessidades de energia, água e alimentos nas circunstâncias atuais, e também as barreiras e as condições propícias que determinam a escolha ou adoção de uma opção em particular. Hoje existem muitas opções - incluindo o gerenciamneto da demanda, o aumento da eficiência da oferta e a oferta de novas opções de fornecimento. Todas podem melhorar ou ampliar os serviços de água e energia, atendendo a crescente necessidade de desenvolvimento em todos os segmentos da sociedade. Se essas opções forem vistas de maneira integrada, e não destinadas a setores específicos, poderemos tirar algumas lições de âmbito geral:
A capacidade das várias opções atenderem as necessidades existentes e futuras, ou de substituírem as ofertas convencionais, depende de cada contexto específico. No geral, porém, elas possuem um grande potencial - tanto individual como coletivamente.
Como opção de desenvolvimento, as grandes barragens sempre tenderam a tornar-se o ponto focal dos interesses de políticos, de órgãos governamentais dominantes e centralizados, de agências internacionais de financiamento e do setor de construção civil. O envolvimento da sociedade varia conforme o grau de debate e de abertura política de cada país. Porém, as barragens inclusas na Base de Conhecimentos da CMB revelam que houve um fracasso generalizado em se reconhecer as pessoas afetadas como parceiras, com direitos, no processo de planejamento e em dar-lhes poder para participarem do processo.
A ajuda estrangeira representa menos de 15% do total das verbas destinadas à construção de barragens nos países em desenvolvimento. Não obstante, esses fundos - mais de US$ 4 bilhões por ano durante o pico de empréstimos entre 1975 e 1984 - desempenharam um papel importante para promover e financiar grandes projetos em países que construíam somente algumas poucas barragens. Esses países costumam ser vulneráveis a conflitos de interesses entre governos, doadores e setores da economia envolvidos em programas de auxílio ao exterior, de um lado, e a melhoria dos resultados do desenvolvimento para populações rurais, particularmente as mais pobres, de outro. Em menor grau, esse auxílio favoreceu os países maiores que desejavam construir muitas barragens (incluindo China, Índia e Brasil), primordialmente através da provisão de financiamento para programas de construção. Em bacias fluviais compartilhadas por mais de um país, a falta de acordos sobre o uso da água é uma preocupação crescente e constitui motivo de tensão. Isso é tanto mais verdade à medida que as exigências vão aumentando e as decisões unilaterais de construir grandes barragens tomadas por um país alteram os fluxos de água de uma bacia, com conseqüências graves para os demais países que compartilham a mesma bacia.
Um exame do ciclo de planejamento e projeto de grandes barragens revela uma série de limitações, riscos e falhas no modo como essas construções são planejadas, operadas e avaliadas:
O efeito líquido dessas dificuldades é que, depois que um projeto de barragem é aprovado em testes preliminares de viabilidade técnica e econômica e atraiu o interesse do governo, de órgãos externos de financiamento ou de políticos, a própria inércia do projeto em andamento costuma prevalecer sobre outras avaliações. Como resultado, inúmeras barragens foram construídas sem qualquer avaliação abrangente ou apreciação dos critérios técnicos, financeiros e econômicos aplicáveis na época - sem sequer um exame dos critérios sociais e ambientais que se aplicam no contexto atual. O fato de que muitos desses projetos não atendem os padrões desses contextos não é, portanto, surpreendente - mas nem por isso é menos preocupante.
Os conflitos em torno das barragens também derivam da incapacidade dos seus defensores e dos órgãos de financiamento cumprirem os compromissos assumidos, respeitarem os regulamentos estabelecidos e se aterem às diretrizes e normas internas de suas instituições. Em alguns casos, as oportunidades de corrupção propiciadas pelas barragens, como projetos infra-estruturais de grande porte, contribuíram para distorcer ainda mais o processo decisório, o planejamento e a implementação. Embora tenha havido uma melhoria significativa nas diretrizes públicas, nos requisitos legais e nas normas de avaliação, particularmente nos anos 90, as coisas ainda parecem continuar como antes no que diz respeito ao planejamento e às decisões efetivas.
Além do mais, quando há divergências substanciais entre os defensores de um projeto e aqueles que serão afetados por ele, qualquer modificação nos planos e decisões exige que se recorra a medidas jurídicas fora do processo normal de planejamento. Consultas regionais realizadas pela Comissão mostraram que, em sua maioria, os conflitos do passado continuam sem solução por diversos motivos - incluindo falta de experiência jurídica ao recorrer de sentenças, resolver disputas e adotar outros mecanismos de apelação.
O Estudo Global também apresenta exemplos e ilustrações recentes de boas práticas, que servem de base para o otimismo da Comissão de que as barreiras são superáveis e as dificuldades não são inevitáveis. Como meios de reduzir impactos negativos e conflitos, essas experiências mostram que existem oportunidades - e, na realidade, uma responsabilidade - de:
As recomendações da Comissão indicam um caminho capaz de melhorar o planejamento, o processo decisório e o cumprimento dos preceitos envolvendo grandes barragens, ampliando assim as opções disponíveis - sejam elas tecnológicas, políticas ou institucionais - e oferecendo soluções economicamente eficientes, socialmente eqüitativas e ambientalmente sustentáveis para atender as necessidades futuras de água e energia.
O debate sobre barragens é um debate sobre o próprio significado, propósito e caminhos do desenvolvimento. Como toda e qualquer opção de desenvolvimento, as decisões sobre barragens e suas alternativas precisam atender uma ampla gama de necessidades, expectativas, objetivos e restrições. São uma função da escolha pública e de políticas públicas. Para resolver os conflitos subjacentes à eficácia das barragens e suas alternativas, é preciso haver um amplo consenso acerca das normas que regem as escolhas de desenvolvimento e os critérios que devem definir o processo de negociação e a tomada de decisões.
Para melhorar os frutos do desenvolvimento no futuro, precisamos considerar os projetos propostos para desenvolver recursos hídricos e energéticos num cenário muito mais amplo - um cenário que reflita um conhecimento e compreensão plenas dos benefícios e impactos do projeto de uma grande barragem e das opções alternativas para todas as partes envolvidas. Significa que é necessária a incorporação de novas vozes, perspectivas e critérios ao processo decisório. Significa também que temos de adotar uma abordagem capaz de obter consenso em torno das decisões tomadas. Isso resultará em mudanças fundamentais no modo como as decisões são tomadas.
Esses processo deve começar com um entendimento claro dos valores, objetivos e metas compartilhadas de desenvolvimento. A Comissão agrupou os valores essenciais que mostram o seu entendimento dessas questões sob cinco tópicos fundamentais:
Esses cinco valores estão presentes no relatório inteiro e são o foco das preocupações que surgiram com as evidências apresentadas no Estudo Global. Estão também alinhados com o modelo internacional de normas elaborado na Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas, que a Comissão considera um modelo importante de padrões internacionalmente aceitos. Há hoje um apoio considerável para que os direitos, e em particular os direitos humanos básicos, sejam considerados um ponto de referência fundamental em qualquer debate sobre barragens - desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada em 1948 e outros acordos similares adotados desde então até a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento adotada pela Assembléia Geral em 1986 e os Princípios do Rio de Janeiro, estabelecidos na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992.
Dada a importância das questões envolvendo tais direitos e a natureza e magnitude dos possíveis riscos a todas as partes envolvidas, a Comissão propõe que seja desenvolvida uma abordagem baseada no "reconhecimento dos direitos" e "avaliação dos riscos" (particularmente dos direitos que correm risco) e que esta se torne o instrumento quer norteará o planejamento e a tomada de decisões no futuro. Tal abordagem também permitirá que se crie um modelo mais eficaz para integrar as dimensões econômica, social e ambiental na avaliação de opções e nos ciclos de planejamento e projeto.
Contextualizar os direitos em um projeto proposto é um passo essencial para identificar as reivindicações e as prerrogativas (ou direitos adquiridos) que possam vir a ser afetadas pelo projeto - ou por suas alternativas. É também a base para identificar claramente quais as partes envolvidas que devem ter um papel formal no processo consultivo e, mais adiante, nas negociações de acordos específicos do projeto - envolvendo, por exemplo, distribuição dos benefícios, reassentamento ou indenizações.
A noção de risco acrescenta uma dimensão importante à compreensão de como, e em que grau, um projeto poderá afetar esses direitos. Na prática tradicional, a definição de risco restringe-se ao risco dos construtores ou investidores institucionais em termos do capital aplicado e dos retornos esperados. Esses indivíduos, que assumem tais riscos por vontade própria, têm o poder de definir qual o grau e tipo de risco que desejam assumir, e podem definir explicitamente quais são os limites aceitáveis desse risco. Em contraste, como o Estudo Global mostrou, há um grupo muito maior de pessoas que é obrigado contra a sua vontade a correr riscos que são administrados por outros. Via de regra, aqueles que correm risco involuntariamente têm pouca ou nenhuma voz ativa na política hídrica e energética em geral, na escolha de projetos específicos ou mesmo na concepção e implementação de um projeto. Os riscos que enfrentam afetam diretamente seu bem-estar individual, seus meios de subsistência, a qualidade de vida e até a sua visão espiritual de mundo e a sua própria sobrevivência.
Lidar com riscos não é algo que possa ser reduzido à consulta de tabelas atuariais ou à aplicação de uma fórmula matemática. No final, como no caso dos direitos, os riscos têm de ser identificados, nomeados e enfrentados explicitamente. Isso exige que o reconhecimento de risco seja estendido a um grupo maior, que abranja não apenas governos e construtores mas também as pessoas afetadas pelo projeto e o próprio meio ambiente enquanto patrimônio público.
A avaliação das opções e os ciclos de planejamento e projeto exigem uma abordagem que considere tanto os direitos como os riscos e que possa constituir-se num modelo eficaz para determinar quem detém um lugar legítimo na mesa de negociações e quais as questões que precisam ser colocadas em discussão (veja Figura 2). Tal abordagem habilita processos decisórios voltados para a busca de resultados negociados, conduzidos de maneira aberta e transparente, que incluam todos que estão efetivamente envolvidos na questão - ajudando assim a resolver as inúmeras e complexas questões envolvendo água, barragens e desenvolvimento. Ainda que com tal abordagem os desafios sejam maiores nos primeiros estágios da avaliação de opções e concepção do projeto, ela conduz a uma maior clareza e legitimidade nas etapas subsequentes do processo decisório e da implementação das decisões.
Depois de estabelecer como fundamento os cinco valores essenciais e uma abordagem que considera os direitos e os riscos, a Comissão formulou uma maneira construtiva e inovadora de promover a tomada de decisões, abrangendo sete prioridades estratégicas e os princípios normativos correspondentes. Esses foram redigidos com base nos resultados a serem alcançados e têm como suporte um conjunto de diretrizes e princípios práticos que devem ser adotados, adaptados e usados por todos os envolvidos no debate sobre barragens. Esses princípios deixam de lado a abordagem tradicional hierarquizada com foco na tecnologia e defendem inovações significativas para avaliar opções, gerenciar barragens existentes, conquistar a aceitação pública e negociar e compartilhar benefícios.
A aceitação pública de decisões fundamentais é essencial para o desenvolvimento equitativo e sustentável de recursos hídricos e energéticos. A aceitação surge quando os direitos são reconhecidos, os riscos são admitidos e estipulados, e as prerrogativas de todas as populações afetadas são salvaguardadas - particularmente as dos povos indígenas e tribais, das mulheres e de outros grupos vulneráveis. Processos e mecanismos decisórios específicos que permitam a participação esclarecida de todos os grupos de pessoas devem ser adotados, resultando na aceitação demonstrável das principais decisões. Quando os projetos afetarem povos indígenas e tribais, tais processos deverão ser guiados pelo consentimento livre, prévio e esclarecido dessas populações.
Muitas vezes existem alternativas a uma barragem. Para explorar essas alternativas, as necessidades de água, alimento e energia devem ser avaliadas e os objetivos definidos com clareza. O tipo de desenvolvimento apropriado será identificado dentre uma série de opções possíveis, com base numa avaliação abrangente e participativa da gama completa de opções políticas, institucionais e técnicas. Nesse processo de avaliação, os aspectos sociais e ambientais devem ter a mesma importância que os fatores econômicos e financeiros. O processo de avaliação de opções continuará durante todos os estágios de planejamento, desenvolvimento e funcionamento do projeto.
Em diversas barragens existentes, é possível otimizar seus benefícios, resolver questões sociais pendentes e intensificar as medidas de mitigação e restauração ambiental. As barragens e o contexto em que operam não devem ser vistos como algo estático ao longo do tempo. Os benefícios e impactos podem variar se houver alteração nas prioridades de uso da água, mudanças físicas e de terreno nas bacias fluviais, avanços tecnológicos e se forem modificadas as diretrizes públicas expressas na legislação ambiental, econômica, técnica e de segurança. As práticas administrativas e operacionais devem se adaptar continuamente a circunstâncias novas durante toda a vida útil de um projeto e um esforço especial deve ser empreendido para resolver as questões sociais pendentes.
Os rios, bacias hidrográficas e ecossistemas aquáticos são os motores biológicos do planeta e a base da vida e do sustento de comunidades locais. As barragens transformam a paisagem e criam o risco de impactos irreversíveis. Compreender, proteger e restaurar os ecossistemas no nível das bacias fluviais é essencial para promover o desenvolvimento humano eqüitativo e o bem-estar de todas as espécies. Avaliar opções e tomar decisões levando em consideração o desenvolvimento dos rios contribui para priorizar a minimização dos impactos e para minimizar e mitigar os danos à saúde e à integridade do sistema fluvial. Evitar impactos mediante a seleção de locais apropriados e a escolha de um bom projeto deve ser prioritário. Além disso, a liberação controlada de fluxos ambientais pode contribuir para a preservação dos ecossistemas a jusante e das comunidades que deles dependem.
Negociações em conjunto com as populações adversamente afetadas por uma barragem resultam em preceitos de desenvolvimento e mitigação ambiental estabelecidos de mútuo acordo e com fundamento jurídico. Esses preceitos reconhecem o direito adquirido das populações afetadas aos meios de subsistência e à qualidade de vida, e reconhecem que essas populações devem ser beneficiárias do projeto. Iniciativas bem-sucedidas de mitigação ambiental, reassentamento e desenvolvimento são compromissos e responsabilidades fundamentais do Estado e da construtora. Cabe a eles o ônus de demonstrar a todas as pessoas afetadas que seus meios de subsistência irão melhorar se deixarem o contexto e os recursos atuais. O compromisso das partes responsáveis em cumprir os preceitos mutuamente aceitos de mitigação ambiental, reassentamento e desenvolvimento deve ser garantido por meios legais, como contratos, e mediante acesso ao recursos jurídicos cabíveis em nível nacional e internacional.
Para assegurar a confiança do público, é preciso que governos, construtoras, legisladores e operadores cumpram todos os compromissos assumidos no planejamento, implementação e operação das barragens. A obediência às leis pertinentes, mediante critérios, diretrizes e acordos negociados para cada projeto, deve ser assegurada em todos os estágios críticos do planejamento e implementação de uma barragem.
Um conjunto de incentivos e mecanismos que se fortaleçam reciprocamente é necessário para aplicar as medidas sociais, ambientais e técnicas. Essas medidas devem envolver uma mistura adequada de normas regulamentares e não-regulamentares, e incluir incentivos e sanções. Para uma maior eficácia, a estrutura de regulamentos e de mecanismos que garantam o cumprimento dos compromissos assumidos deve fazer de uso incentivos e sanções nos casos em que for necessário flexibilidade para adaptar-se a novas circunstâncias.
O armazenamento e desvio da água de rios fronteiriços têm sido uma fonte de considerável tensão entre países limítrofes e dentro de um mesmo país. Uma barragem, sendo uma intervenção específica para desviar água, requer cooperação construtiva. Consequentemente, cada vez mais a utilização e o gerenciamento dos recursos estarão sujeitos a acordos entre Estados que promovam o seu interesse mútuo na cooperação regional e na colaboração pacífica. Isso leva a uma mudança de enfoque - de uma abordagem estreita (a alocação de um recurso finito) ao compartilhamento de rios e seus benefícios correlatos - em que os Estados se mostram inovadores ao definirem o âmbito das questões que serão discutidas. Os órgãos externos de financiamento devem dar o seu apoio aos princípios de negociações de boa-fé entre Estados ribeirinhos.
As prioridades estratégicas recomendadas pela Comissão fazem parte de um amplo arcabouço de diretrizes e normas existentes e emergentes em nível local, nacional e internacional. (Veja Figura 3.) Para que essas prioridades e os princípios subjacentes tornem-se realidade é preciso haver um novo enfoque para o planejamento e o gerenciamento dos setores de recursos hídricos e energéticos.
A melhor maneira de realizar isso é concentrando-se naquelas etapas-chave do processo decisório que influenciam os resultados finais e nas quais o cumprimento dos preceitos regulamentares possa ser verificado. A Comissão identificou cinco pontos críticos do processo decisório envolvendo opções de água e energia. Os dois primeiros dizem respeito ao planejamento e levam a decisões sobre o plano de desenvolvimento preferido:
Se esse processo determinar que uma barragem é a alternativa de desenvolvimento preferida, três outros pontos críticos de decisão ocorrem:
Cada um dos cinco pontos de decisão representa um compromisso com as ações que devem reger a conduta futura e a alocação de recursos. São os pontos em que ministérios e órgãos governamentais têm de testar a legitimidade dos processos anteriores antes de darem o sinal verde para avançar ao estágio seguinte. Os pontos não são exaustivos e, em cada estágio, muitas outras decisões têm de ser tomadas e muitos outros acordos firmados. Os cinco estágios e os pontos de decisões correlatos devem ser interpretados no contexto geral de planejamento de cada país. A Comissão observou ainda que, mesmo quando esses pontos de decisão são transpostos, certas medidas adicionais têm de ser tomadas para melhorar os resultados. (Veja Quadro 3.)
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| Acordos Internacionais
- Convenções internacionais - Direito internacional - Acordos sobre bacias hidrográficas |
Comissão Mundial de Barragens | Padrões Internacionais
- Normas técnicas - Normas de qualidade de água, saúde e segurança - Normas ISO |
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Quadro 3: Barragens em andamentoDiversos projetos de barragens estão atualmente em diferentes estágios de planejamento e desenvolvimento. Nunca é tarde demais para se melhorar os resultados de um projeto - mesmo um de grande escala e porte. Barragens e Desenvolvimento propõe que se empreenda uma revisão aberta e participativa de todos os projetos em andamento ou planejados para determinar se mudanças são necessárias para alinhá-los com as prioridades estratégicas e os princípios da CMB. De um modo geral, legisladores, construtores e, se for o caso, agências de financiamento devem assegurar que essa revisão:
Esse processo de revisão implica novas investigações ou compromissos, a renegociação de contratos e a incorporação de um plano capaz de garantir o cumprimento dos preceitos. Mas os custos financeiros adicionais serão compensados por custos gerais mais baixos para o operador, para o governo e para a sociedade em geral, como consequência de resultados negativos e conflitos evitados. |
No passado, os aspectos sociais e ambientais, e também aqueles envolvendo governo e cumprimento de preceitos, foram desvalorizados no processo decisório. Em vista disso, a Comissão formulou critérios e 26 diretrizes que complementam nossos conhecimentos sobre boas práticas e agregam valor às diretrizes nacionais e internacionais em vigor, incluindo aquelas envolvendo aspectos técnicos, econômicos e financeiros. Tomados em conjunto com os instrumentos que já existem para dar suporte à tomada de decisões, os critérios e diretrizes da Comissão oferecem uma nova direção para o desenvolvimento oportuno e sustentável.
Para que tal mudança se concretize é necessário que:
A Comissão apresenta esses critérios e diretrizes no intuito de ajudar governos, construtores e proprietários - e também as comunidades afetadas e a sociedade civil em geral - a fazer face às novas expectativas da nossa estrutura social diante das questões complexas envolvendo projetos de barragens. Isso contribuirá para decisões embasadas e apropriadas, aumentando assim o nível de aceitação pública e melhorando os resultados do desenvolvimento.
Barragens e Desenvolvimento resume mais de dois anos de estudos intensivos, diálogo e reflexão envolvendo a Comissão Mundial de Barragens, o Fórum das Partes Envolvidas da CMB e literalmente centenas de especialistas em cada aspecto do debate sobre barragens. O Relatório contém todas as conclusões significativas que resultaram desse trabalho e o relatório expressa tudo o que os Comissários julgaram importante divulgar para governos, setor privado, sociedade civil, organizações internacionais e populações afetadas - em suma, todo o espectro de participantes no debate sobre barragens.
A direção é clara. Todavia, uma coisa é enxergá-la. Outra bem diferente é romper as fronteiras tradicionais de nossas idéias habituais e olhar questões familiares sob uma óptica diferente. É isso que a Comissão precisou fazer - e constatou que era de fato algo possível. Processos construtivos semelhantes estão sendo desenvolvidos por muitos dos protagonistas que participaram ativamente do processo da CMB.
É hora de trazer o debate para a nossa casa. A controvérsia em torno das barragens desenrolou-se no cenário internacional. Mas a dissipação dessa controvérsia certamente permitirá que as decisões sobre opções fundamentais de desenvolvimento hídrico e energético sejam tomadas no nível mais apropriado - onde as vozes de poderosos protagonistas e interesses internacionais não abafarão as muitas vozes daqueles que têm um interesse direto em jogo nas decisões. Com isso em mente, todos os protagonistas devem assumir o compromisso de abandonar suas referências e coordenadas usuais. A Comissão recomenda que este relatório seja usado como o ponto de partida para discussões, debates, estudos internos, reavaliações de procedimentos estabelecidos e para uma avaliação de como esses procedimentos podem evoluir para fazer face a uma nova realidade.
Barragens e Desenvolvimento propõe diversos percursos possíveis que ajudarão as organizações a identificar os passos que poderão dar imediatamente em resposta às informações deste relatório. De um modo geral, a Comissão espera que todas as partes interessadas:
Estão incluídas propostas específicas para governos nacionais e ministérios específicos, grupos da sociedade civil, o setor privado, agências bilaterais de ajuda, bancos multilaterais de desenvolvimento, órgãos de crédito para exportação, organizações internacionais e instituições acadêmicas e de pesquisa. (Veja Quadro 4.) Seguir os percursos aqui sugeridos é um excelente ponto de partida para dar início a mudanças permanentes que promovam os princípios, critérios e diretrizes deste relatório.
Quadro 4: Recomendações selecionadas para as principais partes envolvidas no debate sobre barragensGovernos nacionais podem:
Grupos da sociedade civil podem:
Organizações de populações afetadas podem:
Associações profissionais podem:
O setor privado pode:
Agências bilaterais de auxílio e bancos multilaterais de desenvolvimento podem:
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A confiança necessária para que os diferentes setores e protagonistas possam trabalhar juntos ainda precisa ser consolidada. Ações imediatas e resolutas para resolver algumas das questões que surgiram no passado contribuirão muito para estabelecer confiança no futuro. Essa mesma confiança também pode ser estabelecida garantindo-se aos países em estágios incipientes de desenvolvimento econômico que eles não serão privados da opção por barragens sem que tenham antes a chance de examinar as várias escolhas de desenvolvimento de recursos hídricos e energéticos no contexto dos seus próprios processos de desenvolvimento.
A experiência da Comissão mostrou que é possível estabelecer um terreno comum sem comprometimento dos valores individuais e sem que se perca um senso de propósito. Mas também mostrou que todas as partes envolvidas precisam participar do processo em boa-fé se quisermos resolver as questões referentes ao desenvolvimento de recursos hídricos e energéticos. Este é um processo com inúmeros herdeiros e nenhum árbitro definido. Precisamos avançar juntos ou iremos todos fracassar.
Surgirão, é claro, outras divergências sobre essas questões. Um debate dinâmico muitas vezes conduz aos resultados melhores. Entretanto, a Comissão acredita que continuar agindo como sempre se agiu não é uma estratégia viável. Este relatório encerra-se com um apelo à ação e um desafio para todos os leitores.
Realizamos o primeiro estudo abrangente e global do desempenho das barragens e da sua contribuição para o desenvolvimento. Fizemos isso por meio de um processo inclusivo, que reuniu todos os atores significativos do debate. Acreditamos que, desse modo, o centro de gravidade do debate sobre barragens foi descolado para um enfoque baseado na avaliação de opções e na tomada participativa de decisões. A abordagem que propomos, que leva em consideração direitos e riscos, elevará a importância das dimensões sociais e ambientais das barragens para um nível outrora reservado apenas à dimensão econômica.
Contamos a nossa história. O que acontecerá em seguida depende de vocês.
Os membros do Fórum, provenientes de 68 instituições de 36 países, refletem a gama de interesses no debate sobre barragens. O Fórum atuou como uma espécie de "caixa de ressonância" para o trabalho da Comissão, contribuindo para uma comunicação bilateral com os diversos protagonistas do debate. Desse modo, os participantes do Fórum contribuem para o trabalho da Comissão como se fosse seu próprio trabalho. A CMB também está ciente que um simples relatório terá pouco impacto se não estiver firmemente arraigado num processo que permita a todos os grupos de interesse compreender e confiar no processo em si. Contudo, participação no Fórum da CMB não implica endosso do relatório ou conclusões da Comissão.
Recebemos apoio financeiro de 53 colaboradores, incluindo governos, agências internacionais, o setor privado, ONGs e fundações. De acordo com o mandato da Comissão, todas as verbas recebidas tinham de ser "desvinculadas" - isto é, os fundos foram oferecidos sem qualquer condição imposta.
As barragens constituem um cenário incomparável para compreendermos melhor as escolhas complexas que as sociedades têm diante de si para atender suas necessidades hídricas e energéticas. Mais de 45.000 grandes barragens haviam sido construídas no mundo até o ano 2000. Este breve sumário é um resumo do
relatório final da Comissão Mundial de Barragens, Barragens e Desenvolvimento: Um Novo Modelo para Tomada de Decisões. O relatório:
Contestando diversos pressupostos, a Comissão nos apresenta evidências incontestáveis, rigorosas e argutas dos motivos que levam uma nação a decidir construir uma barragem e de como as barragens afetam para melhor e para pior a vida humana, vegetal e animal. Este sumário mostra por que Barragens e Desenvolvimento é uma leitura indispensável sobre o futuro das barragens e sobre o novo contexto do desenvolvimento, no qual novas vozes, escolhas e opções deixam pouca margem para que as coisas continuem como antes.
Barragens e Desenvolvimento:
Um Novo Modelo para Tomada de Decisões
O Relatório da Comissão Mundial de Barragens
ISBN 1-85383-798-9
Disponível em livrarias ou através da
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